
venerdì
giovedì
:: Escrever-lhe...

Como não ter amado
os seus grandes olhos fixos.
Posso escrever os versos
mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho.
Sentir que já a perdi.
Ouvir a noite imensa,
mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma
como no pasto o orvalho.
Importa lá que o meu
amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada
e ela não está comigo.
Isso é tudo.
Ao longe alguém canta.
Ao longe.
A minha alma não
se contenta
com havê-la perdido.
Como para chegá-la
a mim o meu
olhar procura-a.
O meu coração procura-a,
ela não está comigo.
A mesma noite
que faz branquejar
as mesmas árvores.
Nós dois,
os de então,
já não somos os mesmos.
Já não a amo,
é verdade,
mas tanto que a amei.
Esta voz buscava
o vento para tocar-lhe o ouvido.
De outro.
Será de outro.
Como antes dos meus beijos.
A voz, o corpo claro.
Os seus olhos infinitos.
Já não a amo,
é verdade,
mas talvez a ame ainda.
É tão curto o amor,
tão longo o esquecimento.
Porque em noites como esta
tive-a em meus braços,
a minha alma não
se contenta por havê-la perdido.
Embora seja a última dor
que ela me causa,
e estes sejam
os últimos versos que lhe escrevo.
Pablo Neruda
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